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Casa Rosa: local de acolhimento e de histórias de superação em São José
Abrigo noturno oferece alimentação, banho e um lugar para dormir às pessoas em situação de rua
Por floripanews.online
Publicado em 27/07/2026 12:48
Cidade

O amazonense Eugênio Santos (nome fictício), 49 anos, chegou a Santa Catarina em busca de um sonho: trabalhar na área em que se formou. Engenheiro civil, com registro profissional ativo e especialização em Pavimentação, Drenagem e Terraplanagem, ele acreditava que encontraria no Estado uma oportunidade para construir um novo caminho. Mas a vida tomou outro rumo.

 

Depois de sofrer um golpe financeiro e não conseguir uma colocação na área de formação, Eugênio passou a enfrentar uma realidade que nunca havia imaginado. Sem dinheiro e sem moradia, chegou a dormir nas ruas por cerca de dois meses. Foi nesse período que também experimentou drogas pela primeira vez, como uma tentativa de escapar da situação que enfrentava. “Foi muito difícil, eu estava muito vulnerável. Nunca imaginei que passaria por isso. Mas tenho consciência que isso não faz parte da minha vida, que só tenho a perder”, detalhou emocionado.

 

Hoje, aos poucos, a história começa a ganhar novos capítulos. Morador temporário da Casa Rosa, abrigo noturno mantido pela Secretaria de Assistência Social de São José, ele encontrou no serviço um ponto de apoio para se reorganizar. Durante o dia, trabalha em uma serralheria e, nos fins de semana, faz trabalhos como freelancer em um restaurante. À noite, retorna à Casa Rosa para dormir, jantar, tomar banho e descansar. Com as economias do trabalho, Eugênio almeja alugar uma kitnet nas próximas semanas.

 

“Foi muito difícil concluir a graduação. Sou de uma família de baixa renda e fui o primeiro da família a me formar. Eu gastei o que não tinha para ser engenheiro civil. Agora estou procurando me reerguer”, relatou.


Como funciona o serviço?

 

A Casa Rosa tem capacidade para atender 40 pessoas por noite e, na maioria dos dias, funciona com ocupação máxima. Em períodos de frio intenso, quando a procura aumenta, a Secretaria de Assistência Social amplia o atendimento em mais 15 vagas. 

 

O funcionamento da Casa Rosa, no bairro Praia Comprida, tem um custo mensal de R$ 70 mil para a Prefeitura de São José. O valor contempla o aluguel do imóvel e toda a estrutura para a prestação do serviço, incluindo alimentação, mobiliário, roupas de cama e banho, energia elétrica, abastecimento de água e equipe de profissionais. 

 

Segundo a coordenadora da Casa Rosa, Janini Fernanda Gomes da Rocha Araújo, aproximadamente metade das pessoas atendidas diariamente está trabalhando. Para ela, o local funciona como um suporte temporário para que essas pessoas possam recuperar a autonomia.

 

“Eles chegam aqui por volta das 19h e são acolhidos. Às 7 horas da manhã, quando o serviço se encerra, muitos vão atrás de emprego. Trabalham, juntam um dinheirinho e, quando conseguem se restabelecer, alugam um lugar para morar. Aí a gente vê essa evolução”, explicou.

 

Ao longo dos seis anos em que trabalha no local, Janini conta que acompanhou diferentes histórias de superação. “Em 2021, durante a pandemia de Covid-19, muitos empresários passaram por aqui porque tinham perdido tudo. Chegaram com a esperança de se reerguer e conseguiram. Alguns mandam fotos com a família, mostrando que estão bem”, lembrou.

 

A Casa Rosa possui regras de convivência baseadas principalmente no respeito. “Não é permitida a entrada de pessoas sob efeito de álcool ou outras substâncias psicoativas, e os acolhidos devem respeitar os profissionais e os demais usuários do serviço”, contou o diretor da Alta Complexidade da Secretaria de Assistência Social, Guilherme Bosquetti Mateus. 

 

Para a assistente social Marla Sacco Martins, da Secretaria de Assistência Social, histórias como essas ajudam a compreender que a situação de rua é resultado de uma série de fatores e não pode ser reduzida ao uso de álcool e outras drogas, como ainda é visto por parte da sociedade.

 

“Os estudos mostram que geralmente o processo começa com a perda do emprego, a consequente falta de dinheiro e a perda da moradia. Em muitos casos, o uso de álcool e drogas aparece depois, como consequência de todo esse processo de vulnerabilidade”, explicou.

 

O acolhimento oferecido pela Casa Rosa integra uma rede de atendimento da assistência social da Prefeitura de São José, composta também pelo Centro Pop, Abordagem Social e outras duas casas de acolhimento institucional. Durante o dia, o Centro Pop oferece acompanhamento psicossocial, alimentação, higiene, informações sobre o Cadastro Único e orientações para acesso à documentação.

 

Diferentes histórias, o mesmo objetivo

 

Assim como Eugênio, João Batista Costa também deixou sua cidade natal para proporcionar um futuro diferente para a família. Natural de Curitiba, no Paraná, casado e pai de um adolescente de 16 anos, ele trabalha durante a noite em uma empresa de comércio eletrônico, em Governador Celso Ramos.

 

Para chegar ao trabalho, caminha até o bairro Campinas e utiliza o transporte fretado oferecido pela empresa. Nos dias de folga, trabalha como pizzaiolo freelancer. Há quatro meses em São José, conta que encontrou no Centro Pop e na Casa Rosa o apoio necessário para enfrentar o período mais difícil.

“Eu cheguei aqui e tive que depender do Centro Pop e da Casa Rosa para me alimentar e conseguir me movimentar atrás de emprego. Passei muito perrengue, mas distribuí currículos e agora estou trabalhando”, contou.


O esforço tem uma motivação especial: ajudar o filho, de 16 anos, a realizar o sonho de cursar Odontologia. “Desde que meu filho nasceu, eu disse que faria de tudo para dar o melhor para ele. Acredito que todo pai fala isso”, afirmou.

Para Cristhian Damasceno, de 30 anos, o desejo é voltar a ter uma casa. Natural de Joaçaba e há 17 anos na região, ele trabalha como garçom freelancer em restaurantes de Florianópolis e busca uma oportunidade de emprego fixo. Ao lado da companheira, Pamela, de 33 anos, que conheceu quando os dois estavam em situação de rua, tenta construir um novo caminho.

 

“Acabamos caindo na rua por falta de emprego. Primeiro veio a perda do trabalho e, depois, a pessoa acaba se afundando no álcool. Quando percebi, estava naquela situação. Mas um dia acordei para a vida e disse para minha esposa que não queria mais aquilo. Hoje estou livre”, relatou.

 

O casal está junto há cerca de seis anos. “Quero conseguir um emprego e ter o nosso próprio lar. Quero deixar minha esposa em casa tranquila, porque a rua é complicada, especialmente para mulheres”, detalhou.

Para Eugênio, a Casa Rosa representa uma oportunidade para uma nova chance. Sem um lugar seguro para dormir, tomar banho e se alimentar, acredita que seria ainda mais difícil. “Eu gostaria que as pessoas olhassem para a gente como seres humanos. Cada um tem uma história. Tem gente aqui que é formada, que tem qualificação e está precisando apenas de uma oportunidade, de uma ajuda. Eu quero voltar a proporcionar uma vida digna para a minha família”, afirmou.

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