Por Paulo Bornhausen
Secretário de Articulação Internacional de Santa Catarina
As novas tarifas impostas pelos Estados Unidos recolocam o comércio internacional em um ambiente de maior incerteza. Embora o debate se concentre nos impactos imediatos sobre as exportações brasileiras, a questão central é mais ampla: como responder a uma ordem econômica marcada por protecionismo, disputas geopolíticas e mudanças frequentes nas regras do comércio mundial.
Esse movimento não deve ser tratado como um episódio isolado. Tarifas, subsídios,
barreiras técnicas e políticas industriais passarão a influenciar cada vez mais as decisões de empresas e governos. A nova realidade exigirá capacidade de reação no curto prazo, mas também visão estratégica para reduzir dependências e ampliar alternativas. Santa Catarina está inserida nesse desafio.
O Estado possui uma das economias mais industrializadas e diversificadas do Brasil, forte
presença de pequenas e médias empresas exportadoras, cultura empreendedora,
capacidade de inovação e uma estrutura produtiva integrada aos mercados internacionais.
Setores como madeira e móveis, máquinas e equipamentos, metal mecânico, motores
elétricos, cerâmica, têxtil, alimentos, proteínas animais, papel e celulose, tecnologia e
embarcações dependem de acesso competitivo aos principais mercados do mundo.
Por isso, o tarifaço americano precisa ser enfrentado em duas frentes, sendo a primeira
emergencial.
Por decisão do governador Jorginho Mello, o Governo de Santa Catarina apoia os setores
diretamente atingidos pelas novas tarifas. O objetivo é preservar empresas, empregos,
produção e capacidade exportadora enquanto o novo cenário comercial é absorvido.
Esse apoio é necessário porque os impactos não se limitam às grandes empresas. Eles
chegam aos fornecedores, transportadores, produtores, prestadores de serviços e
municípios que dependem dessas cadeias produtivas. Proteger a atividade econômica
neste momento significa preservar um patrimônio industrial construído ao longo de décadas.
A segunda frente deve ser estrutural: dobrar os esforços para abrir novos mercados aos
setores mais atingidos.
A diversificação de destinos precisa tornar-se uma política permanente. Quanto maior o
número de países atendidos pelas empresas catarinenses, menor será a dependência de
qualquer mercado específico e maior será sua capacidade de enfrentar crises, barreiras oumudanças regulatórias. É nesse contexto que a agenda internacional de Santa Catarina
assume importância ainda maior.
O Estado deve aprofundar relações com a União Europeia, a Ásia, o Oriente Médio, a
América Latina e a África, ampliar sua presença institucional no exterior e aproximar
empresas catarinenses de compradores, investidores e parceiros tecnológicos. Não se trata apenas de vender mais, mas de construir relações econômicas duradouras.
O Acordo Mercosul-União Europeia representa uma das principais oportunidades desta
estratégia. A redução gradual de tarifas poderá ampliar a competitividade dos produtos
catarinenses, facilitar o acesso a tecnologias e equipamentos e estimular novos
investimentos industriais.
Da mesma forma, os avanços na cooperação digital entre Brasil e União Europeia criam
oportunidades em inteligência artificial, infraestrutura digital, serviços tecnológicos e
economia de dados. Santa Catarina reúne condições para ocupar espaço relevante nessa
nova fronteira, pela qualidade de suas universidades, pela força de seu ecossistema de inovação e pela presença de empresas de tecnologia.
O Estado também possui vantagens importantes na disputa por investimentos internacionais: segurança pública, ambiente institucional estável, mão de obra qualificada,
forte base industrial, portos competitivos e reconhecida capacidade empreendedora.
Esses atributos, entretanto, precisam ser transformados em resultados. Será necessário
fortalecer a internacionalização das pequenas e médias empresas, ampliar os mecanismos
de inteligência comercial, apoiar certificações internacionais, facilitar o acesso a crédito e
seguro de exportação, qualificar profissionais e acelerar investimentos em logística e
infraestrutura.
Também será fundamental identificar, setor por setor, os mercados com maior potencial de
absorção dos produtos atingidos. A resposta precisa ser precisa, coordenada e orientada
por resultados.
A nova ordem mundial será marcada por maior instabilidade comercial. Governos utilizarão
tarifas para proteger indústrias, disputar empregos, atrair investimentos e fortalecer cadeias produtivas consideradas estratégicas.
Santa Catarina não pode controlar as decisões das grandes potências, mas pode decidir
como responder a elas. A resposta catarinense deve ser de apoio imediato a quem foi
atingido, defesa do emprego e da produção e uma ofensiva permanente pela abertura de
novos mercados.
O tarifaço americano impõe dificuldades, mas também reforça a convicção de que internacionalizar mais, diversificar mais e competir melhor deixaram de ser apenas objetivos econômicos. Tornaram-se condições para proteger o futuro de Santa Catarina.
Mais do que reagir a uma crise, o Estado precisa se preparar para uma nova realidade. E
Santa Catarina está pronto para enfrentá-la.